quinta-feira, 21 de maio de 2026

O Codex de Leningrado.

 


O Codex de Leningrado.

Embora a cidade tenha mudado seu nome de Leningrado para São Petersburgo, o livro ainda é chamado de Codex de Leningrado (B 19A). É o manuscrito completo mais antigo da Bíblia Hebraica do mundo.
O Codex de Leningrado, ou L, para abreviar, pode ser datado por volta de 1008 a 1010 d.C. Como o próprio nome indica, é um livro com páginas, ou folhas, e não umO Codex de Leningrado (1008 d.C.) - Biblioteca Nacional da Rússia, São Petersburgo pergaminho. Já no primeiro século d. C. os estudiosos cristãos começaram a transmitir suas obras sagradas em Codex, em vez de pergaminhos, e no século terceiro o Codex era o padrão. No mundo judaico, contudo, o Codex só foi adotado por volta do século sétimo. O Codex de Leningrado possui dois colofões. De uma palavra grega κολοφών que significa “cume”, “topo”, “final”, cólofon é uma inscrição que contém o título, o nome do escriba ou impressor e a data e local da composição [ou seja, o cólofon trazia as informações agora fornecidas na página de rosto de uma publicação]. O Codex de Leningrado tem um cólofon no início e outro no final (fólio [ou folha] 1a e fólio 491b).

L também é a mais antiga Bíblia Hebraica completa com sinais indicando vogais. O hebraico geralmente é escrito apenas com consoantes. Infelizmente, isto frequentemente deixa espaço para ambiguidade e incerteza; muitas vezes são possíveis várias vogais diferentes e, portanto, várias leituras alternativas.

Para remediar esta situação, vários sistemas de sinais vocálicos subscritos e sobrescritos foram criados por diferentes escolas na Palestina por volta do século X. O sistema mais conhecido, e o que prevaleceu, foi concebido em Tiberíades pelos massoretas, ou escribas, associados à família Ben Asher. Esses escribas também anotavam seus textos com notas marginais – na parte superior, inferior e nas laterais da página. As notas de L são quase tão importantes quanto o seu texto.

O texto preparado por esses massoretas é conhecido como Texto Massorético. Permanece até hoje o texto padrão da Bíblia Hebraica.

O escriba que escreveu o Codex de Leningrado identificou-se nos dois colofões e no centro de uma estrela em uma das requintadas páginas decoradas do manuscrito (fólio 474a). Ele é Shemu’el ben Ya’aqov, ou Samuel, filho de Jacó.

No primeiro cólofon, o escriba nos conta que o manuscrito foi escrito no Cairo (medinat misrayim, que significa capital do Egito). O homem que encomendou o manuscrito também é identificado — quatro vezes, na verdade — como Mevorak ha-Kohen ben-Netan’el. Mevorak significa o Abençoado. Ele é sacerdote (ou descendente de um – o nome judaico “Kohen” denota uma família sacerdotal), filho de Natanael.

A data do manuscrito é dada de cinco maneiras diferentes: 4.770 anos desde a criação do mundo, 1.444 anos desde o exílio do rei Joaquim (586 a.C.), 1.319 anos desde o “domínio grego” (a era selêucida, começando em 309 a.C.), 940 anos desde a destruição romana do Segundo Templo (70 d.C.) e 399 anos desde a Hégira (a fuga de Maomé de Meca para Medina para escapar da perseguição em 622 d.C.).

Quando convertemos estas datas para o nosso calendário, surgem datas ligeiramente diferentes: de 1008 a 1010.

Uma nota no final do primeiro cólofon nos diz que o manuscrito foi comprado em 1489 pelo chefe de uma yeshiva, ou academia rabínica (não sabemos nada sobre o manuscrito entre 1010 e 1489). São fornecidos o nome do comprador e o nome da yeshiva. Três meses após esta compra, foi doado à sinagoga caraíta de Damasco, como aprendemos em outra nota do primeiro cólofon. Como o nome do comprador é o mesmo do doador – é traduzido tanto em judaico-árabe (Ishaq ibn Musa) quanto em hebraico (Yishaq ben-Moshe ben-Eliyahu ben-Alula) – o Codex provavelmente chegou a Damasco pelo época em que foi comprado em 1489.

Assim como nada sabemos sobre as peregrinações do manuscrito de 1010 a 1489, nada sabemos sobre ele depois disso, até que foi adquirido em meados do século XIX por um dos grandes heróis-bandidos da história dos manuscritos: Abraham Firkovich.

Firkovich era caraíta, e isso é importante para a nossa história. Os caraítas aparentemente se originaram na Babilônia e romperam com o judaísmo rabínico por volta de 760 d.C. A principal diferença doutrinária entre os rabanitas e os caraítas era que estes últimos rejeitavam a chamada Lei Oral incorporada no Talmud, sustentando que somente a Bíblia deveria ser seu guia.

Como tantas vezes acontece com os irmãos, a hostilidade entre os caraítas e os rabanitas era muitas vezes intensa. No entanto, até ao final do século XVIII, ambos se consideravam judeus e consideravam até as suas polêmicas mais destemperadas como assuntos judaicos internos.

Codex de Leningrado - Início do livro do GênesisEm 1795, porém, a Rússia conquistou a Crimeia, que abrigava uma grande comunidade caraíta. Os russos logo aliviaram os caraítas do duplo imposto cobrado dos judeus. Os caraítas também foram autorizados a adquirir terras, ao contrário dos judeus não-caraítas. Em 1827, os caraítas foram isentos do temido recrutamento militar, novamente ao contrário dos judeus. Para melhorar ainda mais a sua situação política, os caraítas começaram a impressionar o governo com as suas diferenças fundamentais em relação aos judeus, isto é, aos rabanitas.

Finalmente, em 1840, os caraítas foram colocados em pé de igualdade legal com os muçulmanos, um avanço significativo. Nessa época, os caraítas eram ricos proprietários de terras; seus primos de classe baixa, os judeus rabanitas, eram em grande parte vendedores ambulantes e artesãos.

É neste contexto histórico que devemos compreender Abraham Firkovich. Ele nasceu em 1786 em Lutsk (Luck), Polônia, centro das comunidades caraítas na Lituânia. Embora tenha escrito uma autobiografia, sabemos muito pouco sobre seus primeiros anos – principalmente que ele era o hazzan, ou cantor, em uma sinagoga caraíta em Lutsk.

Ele viajou durante vários anos pelas regiões do sudoeste da Rússia, zeloso em seu esforço para descobrir as origens dos caraítas. Ele estava determinado a provar que eles descendiam de um grupo antigo de judaítas que migraram para a Crimeia após o exílio babilônico (século VI a.C.) – e, portanto, muito antes da Era Comum e muito antes do advento do Judaísmo Rabínico. Se isto fosse verdade, teria fornecido a base para melhorias ainda maiores no status dos caraítas.

Em fevereiro de 1839, Firkovich escreveu uma carta ao seu patrono, Simhah Bobowich, o chefe hakham (homem sábio) dos caraítas russos, na qual reconhecia que os caraítas se separaram dos rabanitas por volta de 640 d.C .(esta data é um pouco anterior). “Assim”, escreveu ele, “teríamos sido participantes do assassinato de Jesus, o que não é bom para nós”.

Firkovich esperava provar que os caraítas estavam na Crimeia muito antes dos judeus, mesmo antes da época de Jesus, extraindo evidências de manuscritos antigos, que ele começou a coletar no início de sua vida. (Ironicamente, recentes descobertas arqueológicas indicam que os judeus podem ter vivido na Crimeia pelo menos já no primeiro século d.C.)

Em 1822 ele fez sua primeira viagem a Jerusalém para coletar manuscritos. Em 1830 fez uma segunda viagem à Palestina, desta vez acompanhado por Bobowich. De 1831 a 1832, Firkovich viveu em Istambul, mas logo retornou à Crimeia para servir a comunidade caraíta em Eupatória, que foi a maior comunidade caraíta da Rússia durante o século 19 e a residência do principal hakham caraíta da Rússia.

Então, em 1839, Firkovich viajou em busca de novas aquisições, desta vez encomendadas pelo governador-geral da Crimeia. Ele até realizou algumas escavações arqueológicas nas montanhas do Cáucaso, bem como na Crimeia, em busca dos primeiros caraítas. Ele encontrou algumas lápides caraítas, mas evidentemente falsificou datas para provar seu caso. Na carta a Bobowich citada anteriormente, ele mencionou quão benéfico seria tal descoberta: “Se, no entanto, pudéssemos encontrar uma pedra [túmulo] do ano 4300 [após a criação], então os cristãos nos dariam muita honra e louvor.”

Não há dúvida de que Firkovich era um especialista em reconhecer e avaliar manuscritos antigos e que possuía uma vasta coleção.

Em 1859, ele se ofereceu para vender o que ficou conhecido como a Primeira Coleção de Manuscritos Firkovich à Biblioteca Imperial de São Petersburgo por 25.000 rublos de prata. Esta oferta foi finalmente aceita, com a condição de que a coleção fosse aumentada por alguns manuscritos que Firkovich havia doado anteriormente à Sociedade de História e Antiguidades de Odessa. Em 1862, esta estipulação foi acordada. Aparentemente, o Codex de Leningrado fazia parte da coleção da Sociedade de Odessa.

Firkovich fez outra viagem mais extensa ao Oriente Médio, de 1863 a 1865, onde reuniu uma coleção ainda maior de manuscritos.

Ele passou os últimos anos de sua vida em Chufut-Kale, na Crimeia, e morreu lá aos 87 anos, em 7 de junho de 1874. Durante esses anos, Firkovich viveu em uma casa magnífica e era conhecido como líder caraíta e empresário de sucesso. Ele até mandou fazer seu retrato: um homem próspero e patriarcal, envolto em uma capa cara e ostentando uma barba branca esvoaçante, senta-se severamente ereto; o cajado que ele carrega pode lembrar o bíblico Abraão, homônimo de Firkovich, o pastor-guardião de seu rebanho.

Mas esse grande velho também era um pouco canalha. Vários estudiosos questionaram a autenticidade de alguns itens de sua coleção. Alguns manuscritos sãoJames A. Sanders (1927-2020) falsificações e outros contêm emendas e interpolações forjadas – parte do esforço de Firkovich para estabelecer o assentamento precoce dos caraítas na Crimeia. Felizmente, as falsificações constituem uma parte pequena e identificável da gigantesca coleção. Aparentemente, ele também mudou as datas de algumas lápides que supostamente provavam a antiguidade dos caraítas na Crimeia; infelizmente, ninguém sabe onde estão essas lápides hoje. Ainda assim, apesar dos seus esforços para estabelecer uma data antiga para os registos – ou, como disse um eminente estudioso, para os “karaizar” – não há qualquer contestação quanto ao fato de ele ter conseguido adquirir a maior coleção de manuscritos hebraicos jamais reunida até esse ponto.

Desde 1988 os estudiosos ocidentais têm tido acesso contínuo e cooperativo à Biblioteca Nacional Russa em São Petersburgo, antiga Biblioteca Pública Estadual Saltykov-Shchedrin e antes disso conhecida simplesmente como Biblioteca Imperial. Uma equipe de Israel, liderada pelo professor Malachi Beit-Arie, professor de codicologia e paleografia na Universidade Hebraica de Jerusalém, está microfilmando praticamente toda a coleção, aparentemente a maior do mundo. Existem mais de 15.000 manuscritos hebraicos somente nas coleções de Firkovich, que são estimados em cerca de 600.000 fólios (1.200.000 páginas). Beit-Arie prevê que serão necessárias gerações para que tal coleção seja avaliada de forma abrangente.

“Na minha opinião”, escreve Beit-Arie, “as coleções de Firkovich contêm muitas centenas de manuscritos ou restos consideráveis ​de Codex (principalmente bíblicos) produzidos nos séculos X e XI. Para compreender plenamente o extraordinário significado desta quantidade, é preciso compará-la com os provavelmente não mais de 30 manuscritos hebraicos daquele período, mantidos em todas as bibliotecas do mundo!”

Firkovich classificou o Codex de Leningrado como a mais importante de suas aquisições, um elogio nada pequeno considerando a extensão e a qualidade de suas coleções. No entanto, nem na sua autobiografia, Livro das Pedras Memoriais (Sefer Avnei Zikkaron), nem nas suas cartas existentes ele nos diz onde, quando ou sob que circunstâncias adquiriu o Codex de Leningrado; ele nem sequer discute este Codex. Ele o trouxe para a Sociedade de História e Antiguidades de Odessa, entretanto. Talvez tenha sido por isso que a Biblioteca Imperial de São Petersburgo insistiu que as doações de Firkovich à Sociedade de Odessa fossem incluídas na compra da Primeira Coleção de Firkovich.

Uma questão intrigante permanece: como o Codex de Leningrado foi escrito no Cairo? Embora esta parte da história do Codex seja tão incerta quanto o seu paradeiro depois de ter sido copiado em 1010, e novamente depois de ter sido comprado e doado à sinagoga de Damasco em 1489, há indícios intrigantes. Se estivermos certos, poderemos até aprender algo sobre os Manuscritos do Mar Morto.

Por volta de 800 d.C. alguns manuscritos hebraicos foram descobertos perto de Jericó. De acordo com uma carta escrita por Timóteo I (726-819 d.C.), o patriarca nestoriano de Selecia, ao arcebispo de Elam, um cão caçador árabe perseguiu um animal até uma gruta perto do Mar Morto. Quando o caçador foi procurar seu cachorro, encontrou “uma gruta na rocha e nela muitos livros”. O caçador levou então o seu saque para Jerusalém, onde pelo menos alguns dos manuscritos foram identificados como livros da Bíblia escritos em hebraico.

Com toda a probabilidade, estes manuscritos vieram do mesmo conjunto de grutas em que os Manuscritos do Mar Morto foram encontrados em circunstâncias semelhantes em 1947 e durante a década seguinte.

No século IX Jerusalém tornou-se o centro espiritual dos caraítas, e vários estudiosos caraítas se estabeleceram lá. Na verdade, os caraítas daquela época eram muito mais influentes em questões espirituais do que os rabanitas de Jerusalém. Os estudiosos caraítas estavam interessados ​em olhar além dos ensinamentos orais das autoridades rabínicas codificados na Mishná e desenvolvidos no Talmud; eles esperavam encontrar o próprio texto bíblico original. Assim, estudaram avidamente antigos manuscritos bíblicos e devem ter ficado intensamente entusiasmados com os textos mencionados por Timóteo I.

À medida que o caraísmo se espalhou, os seus adeptos foram encontrados não apenas em Jerusalém e Constantinopla, mas também, em grande número, no Egito. Lá eles rastrearam seus ancestrais até o remanescente de judeus que fugiram para o Egito com o profeta Jeremias após a destruição de Judá pela Babilônia em 586 a.C. ( Jeremias 43, 4-7 ). A maioria dos manuscritos caraítas nas bibliotecas de Paris e São Petersburgo vem do Egito. No Cairo, os caraítas residiam perto do Nilo, perto de Fostat (Antigo Cairo).

Tendo estabelecido uma ligação entre os manuscritos hebraicos bíblicos encontrados em cavernas perto de Jericó por volta de 800 d.C. e os caraítas no Egito (através dos caraítas de Jerusalém que teriam examinado os textos antigos), vamos ver se conseguimos estreitar o vínculo.

Há uma sinagoga no Cairo Antigo, conhecida como Sinagoga Ben Ezra, que é famosa por sua célebre genizah, um depósito para documentos sagrados desgastados. Por alguma razão, na Sinagoga Ben Ezra, todos os tipos de documentos, não apenas documentos sagrados, foram jogados no que ficou conhecido como Genizah do Cairo; estes documentos aí permaneceram durante séculos, até à sua descoberta no final do século XIX. Na verdade, algumas das primeiras compras de Firkovich provavelmente vieram do Genizah do Cairo.

Em 1897, um estudioso da Universidade de Cambridge chamado Solomon Schechter encontrou dois documentos estranhos no Genizah do Cairo que publicou em 1910 sob o título “Fragmentos de uma Obra Sadoquita”. Eles tinham afinidades com documentos caraítas, e muitos sugeriram que os fragmentos de Schechter eram de fato caraítas. Schechter, no entanto, acreditava que eram cópias de uma obra muito mais antiga composta antes da destruição romana de Jerusalém em 70 d.C. Ele observou, por exemplo, que o hebraico dos fragmentos, ao contrário do hebraico usado pelos rabinos depois de 70 d.C., se assemelha muito ao hebraico dos livros mais recentes da Bíblia.

A conjectura de Schechter mostrou-se espantosamente correta quando diversas cópias da mesma obra surgiram entre os Manuscritos do Mar Morto.

Mas como é que esta obra, agora conhecida como Documento de Damasco, foi de Qumran, onde os Manuscritos do Mar Morto estavam escondidos, até a Genizah do Cairo? Provavelmente estava entre os documentos encontrados por volta de 800 d.C. e levados para Jerusalém. Lá teria sido estudado por estudiosos caraítas, que certamente teriam admirado o sacerdócio sadoquita, especialmente sua rejeição ao sacerdócio de Jerusalém, e os regulamentos estritos do Documento de Damasco relativos à comunidade da Nova Aliança, muito semelhantes à rejeição caraíta da doutrina do judaísmo rabínico. O documento foi, sem dúvida, copiado repetidas vezes pelos caraítas, e duas cópias finalmente chegaram à Genizah do Cairo, para serem descobertas em 1897.

Esta suposição é apoiada por outra estranha conexão manuscrita. O interesse de Schechter na Genizah do Cairo foi desencadeado por algumas folhas de uma cópia hebraica do Livro do Eclesiástico (Sirácida) que veio da Genizah do Cairo. Antes dessa época, apenas cópias gregas do Sirácida haviam sido encontradas, e era incerto se o original estava escrito em hebraico ou em grego (resposta: hebraico). Fragmentos hebraicos do Sirácida também foram posteriormente encontrados entre os Manuscritos do Mar Morto. Aparentemente, uma cópia hebraica do Sirácida estava entre as descobertas de cerca de 800 d.C., e cópias delas chegaram à Genizah do Cairo.

Astrid B. Beck (1943-)Portanto, uma trilha caraíta da Palestina ao Cairo não é tão difícil de imaginar. Como isso nos ajuda a explicar por que o Codex de Leningrado foi encomendado e escrito no Cairo?

Assim como o Documento de Damasco e o Sirácida hebraico chegaram de Jerusalém ao Egito como resultado do interesse acadêmico caraíta, o mesmo aconteceu, muito provavelmente, com cópias da recensão rabínica da Bíblia Hebraica criada no século X em Tiberíades, no sudoeste do país, costa do Mar da Galileia.

Como já observamos, no século X, os escribas conhecidos como massoretas acrescentaram vogais e acentos ao texto consonantal hebraico, padronizando-o e comentando seu trabalho em notas marginais. Obviamente isto foi de grande importância para os caraítas.

Cópias deste novo texto sem dúvida circularam rapidamente e algumas foram levadas para o Cairo para servir às necessidades da comunidade caraíta local. Lá, Shemu’el ben Ya’aqov provavelmente fez uma cópia de um dos manuscritos autorizados preparados pelo próprio Aarão ben Moisés ben Asher em Tiberíades. Eventualmente, como vimos, esta cópia chegou a Damasco. Firkovich o adquiriu em uma de suas viagens mais distantes, talvez até em Damasco.

Existe apenas um outro manuscrito ao qual o Codex de Leningrado pode ser comparado: o Codex de Aleppo. Tanto o Codex de Aleppo como o Codex de Leningrado preservam o texto da escola de massoretas de Ben Asher. O Codex de Aleppo, no entanto, é ainda mais antigo, datando de cerca de 935 d.C. De 1478 a 1947, esteve instalado na Sinagoga Mustaribah, em Aleppo – daí o seu nome. Há uma tradição de que Maimônides, o grande filósofo judeu e estudioso da Bíblia do século XII, viu o Codex de Aleppo, pois se refere a ele como o codex autorizado para o estudo textual.

Em 2 de dezembro de 1947, quatro dias depois de as Nações Unidas aprovarem uma resolução para dividir a Palestina, criando assim o Estado de Israel, multidões árabes em Aleppo (e em outros lugares da Síria) iniciaram um ataque violento contra judeus sírios e suas propriedades. Entre os alvos estava a Sinagoga Mustaribah, um marco desde o século IV. Miraculosamente, porém, 294 das 380 folhas do Codex de Aleppo foram recuperadas. Na sequência elas foram transferidas para Israel e agora são propriedade da Fundação Yitzchak Ben-Zvi em Jerusalém.

Mas mesmo antes do desastre de 1947, o Codex de Aleppo era em grande parte inacessível aos estudiosos.

Na década de 1920 o grande crítico textual alemão Paul Kahle quis usar o Codex de Aleppo como texto base para a terceira edição da Bíblia Hebraica (BH).

BH é a edição crítica da Bíblia Hebraica usada por estudiosos de todo o mundo desde que a primeira edição foi publicada em 1905. É também a base textual a partir da qual foram feitas a maioria das traduções, para qualquer orientação religiosa. As duas primeiras edições usaram o texto tradicional da Bíblia rabínica, impressa na Itália no início do século XVI. Desde então, tornou-se claro que tanto o Codex de Aleppo como o Codex de Leningrado são testemunhas superiores.

Kahle sabia que o Codex de Aleppo era mais antigo e provavelmente ainda mais autêntico que o Codex de Leningrado. Infelizmente, porém, ele não conseguiu persuadir os funcionários da sinagoga em Aleppo nem sequer a permitir-lhe estudá-lo na sinagoga, muito menos emprestá-lo ou fotografá-lo.

Por outro lado, em 1926 Kahle foi autorizado a levar o Codex de Leningrado para Leipzig. Lá, seu aluno, Gottfried Quell, preparou copiosas notas para Rudolf Kittel — o ilustre editor das duas primeiras edições de BH — que então preparava uma terceira edição.

Assim, o Codex de Leningrado tornou-se o texto base da terceira edição de BH (1937), chamada pelos estudiosos de BHK (Biblia Hebraica Kittel).

O Codex de Leningrado é também o texto base da quarta edição da BH (1976/7), conhecida como BHS, Biblia Hebraica Stuttgartensia. Esse é o texto agora usado em todo o mundo para estudo acadêmico e tradução.

A quinta edição da BH, referida como BHQ (Biblia Hebraica Quinta), que está atualmente sendo preparada por uma equipe internacional de estudiosos, também usa como base o Codex de Leningrado. Sua publicação começou em 2004.

Embora o Codex de Leningrado tenha sido fotografado e microfilmado, a maioria das fotografias e filmes originais desapareceram e as cópias restantes são menos que satisfatórias. Até mesmo algumas consoantes hebraicas não são claras nessas cópias, e as minúsculas notas marginais são em sua maioria ilegíveis. Claramente, um novo conjunto de fotografias era necessário.

Após negociações cuidadosas e politicamente sensíveis, a equipe da Ancient Biblical Manuscript Center (ABMC), de Claremont, Califórnia, recebeu permissão para viajar em maio/junho de 1990 para Leningrado (agora São Petersburgo novamente) para fazer o tedioso trabalho de filmar todas as 982 páginas do Codex de Leningrado, incluindo notas finais e páginas com gravuras, em filme colorido e preto e branco. Cópias das novas fotografias foram fornecidas aos estudiosos que preparam a quinta edição da Bíblia Hebraica. Uma edição fac-símile do Codex de Leningrado foi publicada em 1998.

Com as novas fotografias do Codex de Leningrado, a BHQ incluirá, pela primeira vez, todas as notas marginais (masorot) da Bíblia Hebraica completa mais antiga do mundo.

Compreender o valor desses masorot requer um pouco de compreensão de alguma história acadêmica.

As notas massoréticas preservam as primeiras tradições orais sobre como o texto escrito deve ser lido. Até recentemente, estas notas eram consideradas secundárias em relação ao próprio texto consonantal. Este princípio remonta pelo menos até Martinho Lutero. No início do século 16, Lutero foi confrontado com discrepâncias nos vários textos da Bíblia Hebraica que estavam disponíveis para ele. Ele era extremamente cético em relação ao que considerava inovações massoréticas adicionadas às consoantes do texto hebraico. Os estudos modernos do Antigo Testamento têm seguido essa visão desde então – até o período pós-moderno, que começa em meados do século XX.

Agora o paradigma da crítica textual mudou, como pode ser visto claramente na BHQ, Vemos agora a tradição de leitura – isto é, a contribuição dos massoretas – tão autêntica quanto as letras (consoantes).

Assim, as novas fotografias do Codex de Leningrado, tal como publicadas na edição fac-símile e incorporadas na quinta edição da Bíblia Hebraica , estão, pela primeira vez, disponibilizando todas as riquezas da tradição incorporadas neste famoso manuscrito a todos os que se dedicam aos estudos bíblicos.

Fonte: James A. Sanders, Astrid Beck, The Leningrad Codex: Rediscovering the oldest complete Hebrew Bible. Bible Review, Volume 13, Number 4, August 1997.

O texto original do artigo, em inglês, pode ser baixado clicando aqui.

Sobre os autores: James A. Sanders (1927-2020) e Astrid B. Beck (1943-).

Veja imagens do Codex de Leningrado clicando aqui e aqui.




quarta-feira, 18 de março de 2026

Um Profundo Estudo Sobre a Ceia do Senhor.

 


Por Reinaldo Carlos Rocha.

Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálice. 

1 Coríntios 11:28.


1 - Examine-se quanto ao seu entendimento, você sabe o que é a Ceia do Senhor?
2 - Você entende que a presença de Cristo é real nesse ambiente como apontam os dois elementos, você piamente acredita que se nós nos fechássemos aqui dentro e fizéssemos um silêncio ensurdecedor ao ponto de captarmos até o respirar de Jesus nesse ambiente?

3 - Você compreende que o ato em si é em memória Dele e que esse ato aponta para a segunda vinda Dele?

Ele mesmo faz referência disso quando diz “até que eu venha”.

4 - Você entende sobre a Nova Aliança, sobre o perdão dos pecados pelo sangue de Jesus representado pelo cálice, você crê realmente nesse fator purificador, as bodas de Caná da Galiléia abre esse leque de entendimento, a água das talhas que eram usadas para a purificação exterior agora é substituída pelo vinho que não trabalha mais na parte externa mas sim, na parte interna do ser humano?

5 - Faça uma análise da sua situação espiritual, como você está? Pense por um momento como você no momento da Ceia se aproximará de Deus, há em seu coração algo que o impeça de se achegar à mesa da comunhão?


Porque o que come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor. 

1 Coríntios 11:29.


1 - Discernir o corpo de Cristo vai na mesma linha do entendimento da presença do Cristo entre nós, se Cristo está presente através dos elementos da Ceia, cabe dizer que, esse ambiente é um ambiente de comunhão, se há alguém presente que não entende que esse momento remonta a comunhão dos santos presente e futura, essa pessoa não deve participar da Ceia, porque se Jesus está presente e esse ambiente é tomado pela presença Dele, do Trono de Deus são liberados para esse ambiente 1 - comunhão, 2 - graça, 3 - misericórdia.

2 - Muitos dos irmãos em vez de beberem da comunhão, graça e misericórdia estavam bebendo juízo, isso porque lemos o texto da Ceia a partir de um pressuposto de que os problemas haviam sido resolvidos e eu digo para todos, longe estavam de uma resolução, as palavras de Paulo são palavras de repreensão e não de louvor, se naquele momento Paulo está debaixo da orientação do Espírito Santo, então entenda-se que é o próprio Deus repreendendo aquela Igreja, não é um texto da palavra do homem que estamos lendo, mas, um texto da Sagrada Palavra de Deus.


Por causa disto há entre vós muitos fracos e doentes, e muitos que dormem. 

1 Coríntios 11:30.


1 - A igreja de Corinto estava sob o juízo de Deus, como entender isso em pleno tempo de graça e misericórdia? Da mesma forma que entendemos o acontecido com Ananias e Safira, que entenderam errado o conceito de graça divina e fizeram da graça como eu sempre gosto de falar, um colchão que amortece a queda, sabe aquele colchão que você só acompanha nos making off das gravações? A graça para muita gente dentro das Igrejas simboliza aquele colchão, ou seja, você cai e a graça amortece a queda e o ser não sofre as consequências.  

2 - Por que isto estava acontecendo?  Porque, se nós nos julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados. Mas, quando somos julgados, somos repreendidos pelo Senhor, para não sermos condenados com o mundo.  1 Coríntios 11:31,32.

3 - Ou seja, se eu após um autoexame encontrasse algum impeditivo para a participação na Ceia e mesmo assim não fizesse caso disso impondo a mim mesmo uma restrição, o Senhor faria isso, então, para não sermos condenados com o mundo num julgamento futuro, o Senhor nos repreende de forma dura através do testemunho e da advertência do Apóstolo Paulo à Igreja de Corinto. Um autoexame de forma consciente é um movimento de pura reflexão, é como se nós internamente fizéssemos uma deliberação ao nosso espírito e levássemos o nosso espírito ao crivo do Espírito Santo, nesse caso, o Espírito de Deus seria o nosso representante legal participando desse momento e avaliando absolutamente tudo.


Ao final do meu autoexame, se algo fosse encontrado que me reprovasse, o próprio Espírito ministraria no meu espírito o meu próximo movimento (Salmo 19:12), porque existe o desagravo consciente e inconsciente, os conscientes estão diante de mim, e os inconscientes vão ser trazidos à luz no autoexame e aí a pessoa decide o que fazer, essa palavra autoexame se tornou muito popular a partir da implantação de alguns protocolos de saúde pública, a proposta é “se auto examine”, se você perceber algo, procure um especialista. Se no físico, nós já precisamos buscar um especialista, quando se trata de questões espirituais à quem você recorre? Davi após ser levado a um autoexame por Natã, faz o que? Pedro quando é levado para um autoexame na presença de Jesus, faz o que?

4 - Se havia no contexto a passagem (morte física mesmo) de alguns irmãos, penso na total falta de reverência dessa Igreja quanto ao trato com as ordenanças de Deus, principalmente a Ceia.






quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O Valor da Introspecção.

 



POR: REINALDO CARLOS ROCHA.


O Que é Introspecção?


É um esforço de auto-observação interior. (fiquemos apenas com essa curta definição).

Como se trata de um esforço, a consciência do indivíduo precisa de um tempo para codificar a informação recepcionada. Em tempos de agendas lotadas, essa possibilidade quase sempre é descartada, dessa forma, as atitudes sempre caminham na contramão da observação e por conseguinte, na resolução das questões.

A mente precisa de um tempo para codificar o que recebe, isso se apresenta na forma de meditação, é deixar o interior ser preenchido com a informação para depois então analisar e dar seguimento ou não.


Enquando estiver ministrando, encaixarei os versos bíblicos na ministração, esse assunto possibilita usar a Palavra de Deus em todo seu conteúdo, sendo a Bíblia uma perspectiva de mudança de mentalidade.


Perceba o ser humano em sua forma descritiva em relação aos pensamentos, perceba também a divisão das faculdades da alma e do espírito, nesse ponto há a necessidade de estabelecermos para qual área a informação chegou. Parece algo de difícil compreensão, porém, essa atitude faz toda a diferença. Vejamos o nosso caso específico como, espero, leitores contumazes da Bíblia, recebemos informações o tempo inteiro, essas informações em forma de narrativas nos levam para o caminho da reflexão, quando estamos diante da narrativa por exemplo, de Abraão quando leva Isaque para o Monte Moriá, quem conhece a história já sabe o final, agora imagine uma pessoa tendo contato pela primeira vez com essa narrativa, que tipo de sensação pode desencadear nessa pessoa até o desfecho dessa narrativa de Gênesis 22? Por esse motivo chamo de "valor introspectivo", por se tratar de algo que reflete um grau enorme de importância em nossas vidas.


Como se dá o conhecimento? São três as fontes, a saber:


1 - Herança; 2 - Pesquisa, 3 - Revelação.


Essa perspectiva é inerente a todo ser humano sem distinção, as variações não serão tratadas nesse artigo, se assim fosse teria que explorar a mentalidade ocidental e a oriental, essa não é a intenção primária aqui.

Voltemos para a recepção da informação e em que área ela foi recepcionada.

As três faculdades da alma são:


1 - Intelecto;

2 - Sentimento,

3 - Vontade.


As duas faculdades do espírito são:


1 - Consciência,

2 - Fé. (abro um parêntese na fé faço uma extensão para a adoração e devoção).


Penso eu que, agora você já está apto a discernir as fontes do aprendizado, bem como as faculdades da alma e do espírito, cito aqui, espírito do homem.

A meditação fará com que você perceba em que área a informação foi recepcionada, agora sim vamos acrescentar um texto ao que já foi ministrado.

E ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente,

Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás. Gênesis 2:16,17.

Se pensarmos que o homem nessa passagem faz referência ao casal, podemos fazer uma análise mais profunda da informação recepcionada pelos dois, essa verdade é melhor compreendida quando acessamos o capítulo três do mesmo Livro, deixando claro que, não se trata da explicação em relação à queda, mas sim, de como Deus resolveu o problema da desobediência do homem.


A mulher:


Vamos direto ao ponto da informação recepcionada pela mulher. No capítulo dois o casal está junto e recebem juntos o imperativo de Deus, isso por si só, bastaria para que o casal sequer pensasse em chegar próximo ao local da árvore do conhecimento do bem e do mal, creio que havia uma distinção entre essa árvore e as outras presentes no Jardim do Éden. Certamente morrereis, não é algo que se informa sem peso de consequência grave, muitos expositores bíblicos citam a questão da inocência como resultado da desobediência, essa abordagem é perigosa, visto que o casal vivia plena consciência de tudo o que lhes foi apresentado por Deus, esse estado consciente do homem, o torna capaz de entender a possibilidade da gravidade no que tange à desobediência, perceba que, quando Deus, na viração do dia procura o casal, este já se achava consciente de que havia pecado.


Certamente não morrereis:


É a contrainformação, em tempos de guerra diríamos que é uma estratégia para confundir o inimigo! Eva, no episódio da conversa com a serpente já recebeu uma mensagem anterior que produz um efeito na relação Espírito/espírito, não é uma mensagem qualquer, a referência é o distanciamento do espírito de Eva do Espírito de Deus, quanto mais longe, menos interferência, quanto menos olharmos para Deus e suas advertências contra o inimigo, mais nos tornamos presas fáceis para as suas argumentações.










terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Uma Ministração.






“Se me amardes, guardareis os meus mandamentos.”

Neste artigo, examinaremos principalmente os capítulos 14 e 15 do Evangelho de João. Estamos no final da obra de Jesus. Judas traiu o Senhor e está levando Seus inimigos para prendê-Lo e, por fim, crucificá-Lo. Nessas horas finais, Jesus dá Suas últimas instruções aos Seus discípulos. São instruções cruciais, e devemos dar-lhes toda a nossa atenção.
   Vamos começar com João 14:15. Lá, o Senhor disse:
 
João 14:15.

“Se me amardes, guardareis os meus mandamentos.”
 
   Muitas pessoas ficam incomodadas quando ouvem falar de mandamentos. Isso se deve a uma visão distorcida da graça de Deus, segundo a qual graça e mandamentos são opostos. Assim, de acordo com essa visão, uma vez que a salvação é pela graça, não precisamos guardar nenhum mandamento ou, na melhor das hipóteses, tais mandamentos podem ser bons, mas guardá-los não é absolutamente necessário. O que é necessário, de acordo com essa visão, é “crer”. Se “cremos”, mas não tentamos guardar os mandamentos do Senhor, não há nenhum problema sério. Assim, de acordo com essa visão, a fé parece ser um estado de espírito, algo em que acredito, mas não há necessidade absoluta de agir de acordo com o que acredito. Seria bom se eu agisse de acordo com isso, mas tal ato não é considerado obrigatório. E aqui vem o Senhor para derrubar todas essas construções mentais. “Você me ama?” “Se sim, então cumpra meus mandamentos”, disse ele, não deixando margem para interpretações errôneas.
   O que acabamos de ler ecoa Seus ensinamentos encontrados em todos os Evangelhos, que deixam clara a profunda importância de guardar os mandamentos do Senhor. Por exemplo, em Lucas 6:46-49, lemos:
 
Lucas 6:46-49.

E por que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que eu digo? Qualquer que vem a mim, e ouve as minhas palavras, e as observa, eu vos mostrarei a quem é semelhante. É semelhante ao homem que edificou uma casa, e cavou, e abriu bem fundo, e pôs os alicerces sobre rocha; e, vindo a enchente, bateu com ímpeto a corrente naquela casa e não a pôde abalar, porque estava fundada sobre rocha. Mas o que ouve e não pratica é semelhante ao homem que construiu uma casa sobre terra, sem alicerces, na qual bateu com ímpeto a corrente, e logo caiu; e foi grande a ruína daquela casa.”
 
E Mateus 7:21.

Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.
 
   Como Jesus deixa claro, não basta chamá-Lo de “Senhor, Senhor”. Também devemos fazer o que Ele diz, a vontade de Seu Pai, Seus mandamentos. Chamá-Lo de Senhor, mas recusar-se a cumprir Seus mandamentos, não nos levará ao Reino dos Céus. Acabamos de ler isso! Portanto, tentar fazer a vontade de Deus não é opcional. Não é algo que fazemos se temos vontade, mas se não fizermos, não importa. Pelo contrário, é obrigatório e absolutamente crucial, porque sem isso não entraremos no Reino dos Céus. Isso faz com que fazer a vontade de Deus seja a marca de um verdadeiro discípulo. O discípulo que toma sua cruz e O segue. Aquele que escolheu a porta estreita e não a estrada larga que leva à destruição.
 
Mateus 7:13-14.

Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta, e espaçoso, o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela; E porque estreita é a porta, e apertado, o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem.
 
E Mateus 16:24-25.

“Então, disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz e siga-me; porque aquele que quiser salvar a sua vida perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim achá-la-á.”
 
   Queremos segui-Lo? Então, neguemos a nós mesmos, tomemos nossa cruz e sigamos-O. Passemos pela porta estreita e trilhemos o caminho difícil, o único caminho que leva à vida. O caminho largo, o caminho que a maioria segue, o caminho FÁCIL, que não requer cruz, onde tudo é fácil e onde podemos viver como o mundo sem arrependimento, leva à destruição. Somente o caminho difícil leva à vida.
   Mas voltemos ao evangelho de João e ao que o Senhor disse aos Seus discípulos naquela última noite:
 
João 14:21.

Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, este é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele.
 
   Amamos Jesus quando guardamos os Seus mandamentos. “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, este é o que me ama”, disse Ele. Portanto, essas duas coisas — amar Jesus e guardar os Seus mandamentos — estão inseparavelmente ligadas. Nós O amamos se guardamos os Seus mandamentos. E guardamos os Seus mandamentos porque O amamos. Caso contrário, não O amamos verdadeiramente. Na verdade, Ele disse isso nos versículos 23 e 24:
 
João 14:23-24.

“Jesus respondeu e disse-lhe: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada. Quem não me ama não guarda as minhas palavras; ora, a palavra que ouvistes não é minha, mas do Pai que me enviou.”
 
   Não importa o que dizemos, mas o que fazemos. Dizer que amamos o Senhor, mas não fazer o que Ele diz, não é sinal de “amor” sincero, mas apenas “amor” em palavras. Tentar verdadeiramente guardar os Seus mandamentos, mesmo com falhas, é o que realmente mostra se O amamos ou não. E qual é a promessa para nós, queridos irmãos e irmãs, se tentarmos guardar as Suas palavras? Jesus nos amará e se revelará a nós! E Seu Pai nos amará! Ele e o Pai virão até nós e farão Sua morada em nós! Não queremos isso? Não queremos nos tornar a morada do Pai e do Filho? Não queremos que Jesus se revele a nós? Eu gostaria muito disso! E acredito que vocês também! Mas temos que fazer algo a respeito. Devemos guardar os Seus mandamentos. Devemos tomar nossa cruz e segui-Lo. Não devemos andar segundo a carne, não devemos andar pelo caminho largo do mundo, mas pela porta estreita.
   Muitos cristãos buscam o “segredo” da verdadeira comunhão com o Senhor. Muitos pregadores também apresentam a verdadeira comunhão com o Senhor como algo para o qual existe um segredo, que eles supostamente conhecem a chave e que devemos seguir sua receita para encontrá-la. Mas, meus irmãos, não há segredo! Tudo é claro. Jesus deixou isso absolutamente claro:
 
João 14:21.

Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, este é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele.
 
   A chave é guardar os mandamentos do Senhor, Sua Palavra. Quem os guarda ama verdadeiramente o Senhor e será amado pelo Pai e pelo Filho. O Pai e o Filho farão sua morada nele, e o Filho de Deus se revelará a ele. É tão simples e tão verdadeiro assim.
 
A videira e os varas.

   Depois que Jesus deixou isso claro, Ele continuou com a parábola da videira:
 
João 15:1-9.

“Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o lavrador. Toda vara em mim que não dá fruto, a tira; e limpa toda aquela que dá fruto, para que dê mais fruto. Vós já estais limpos pela palavra que vos tenho falado. Estai em mim, e eu, em vós; como a vara de si mesma não pode dar fruto, se não estiver na videira, assim também vós, se não estiverdes em mim. Eu sou a videira, vós, as varas; quem está em mim, e eu nele, este dá muito fruto, porque sem mim nada podereis fazer. Se alguém não estiver em mim, será lançado fora, como o ramo, e secará; e os colhem e lançam no fogo, e ardem. Se vós estiverdes em mim, e as minhas palavras estiverem em vós, pedireis tudo o que quiserdes, e vos será feito. Nisto é glorificado meu Pai: que deis muito fruto; e assim sereis meus discípulos. Como o Pai me amou, também eu vos amei a vós; permanecei no meu amor.”
 
   O Senhor continua nesta passagem maravilhosa o que disse anteriormente. Ele é a videira, nós somos os ramos da videira e o Pai é o viticultor. Como ramos, devemos permanecer na videira. “Estai em mim, e eu, em vós”, disse ele. Se permanecermos Nele, daremos muito fruto. Se não permanecermos Nele e acabarmos sem fruto, então murcharemos e, como disse o Senhor, teremos o mesmo fim que os ramos secos: serão recolhidos e lançados ao fogo. Assim, vemos novamente que permanecer na videira, amar verdadeiramente a Jesus e segui-Lo, guardando os Seus mandamentos, não é de forma alguma opcional, nem é algo garantido para todos os crentes. Pelo contrário, é uma decisão diária, assim como a decisão de fazer ou não fazer o que o Senhor nos ordena é diária.
 
   Neste ponto, vem à minha mente a parábola do semeador: nela, a semente da Palavra de Deus brotou em três dos quatro tipos de corações em que caiu. No entanto, ela só deu fruto em um tipo de coração. Nos outros dois, acabou sem fruto. Aqui estão essas três categorias:
 
Lucas 8:13-15.

“e os que estão sobre pedra, estes são os que, ouvindo a palavra, a recebem com alegria, mas, como não têm raiz, apenas crêem por algum tempo e, no tempo da tentação, se desviam; e a que caiu entre espinhos, esses são os que ouviram, e, indo por diante, são sufocados com os cuidados, e riquezas, e deleites da vida, e não dão fruto com perfeição; e a que caiu em boa terra, esses são os que, ouvindo a palavra, a conservam num coração honesto e bom e dão fruto com perseverança.”
 
   As duas primeiras categorias ouviram a palavra, acreditaram nela, mas não a guardaram. A primeira dessas duas categorias, “apenas crêem por algum tempo e, no tempo da tentação, se desviam”. A segunda, “quando ouvem, são sufocados com os cuidados, e riquezas, e deleites da vida, e não dão fruto com perfeição”. Somente a terceira categoria deu fruto. As outras duas, infelizmente, não. Elas provavelmente começaram bem, com alegria. Mas, no final, outras coisas ou perseguições fizeram com que mudassem de ideia. Sim, eles acreditaram uma vez. A Palavra diz explicitamente sobre a primeira dessas duas categorias que elas acreditam por um tempo. Elas foram fiéis, mas apenas por um tempo. Não é suficiente, meus irmãos, ser fiel apenas por um tempo. Queremos ser fiéis PARA SEMPRE, até nosso último suspiro. Também não é suficiente sermos “crentes” infrutíferos que servem a nós mesmos. Que chamam Jesus de Senhor, Senhor, mas se recusam a fazer o que Ele diz. Em vez disso, queremos ser frutíferos, para ter certeza de que fazemos a vontade do Pai e servimos a Jesus cumprindo Seus mandamentos, dia após dia, até o fim.
   Mas continuemos em João 15:
 
João 15:10-14.

Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, do mesmo modo que eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor. Tenho-vos dito isso para que a minha alegria permaneça em vós, e a vossa alegria seja completa. O meu mandamento é este: Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a sua vida pelos seus amigos. Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando.
 
   Repetidamente, neste último discurso aos Seus discípulos, poucas horas ou minutos antes de Sua prisão, o Senhor fala da importância vital de guardar Seus mandamentos. Somos seus amigos se fizermos o que Ele nos manda. Estamos na videira se permanecermos Nele, se cuidarmos e mantivermos nossos corações bons, para que a semente da Palavra dê muitos frutos, como o Senhor deseja para nós. Quem ouve as palavras “fruto” e “mandamento” e se sente desconfortável porque supostamente não temos nada a fazer, já que o Senhor fez tudo por nós, deve pensar novamente. Porque o Senhor não só não se sente desconfortável ao falar assim, mas Ele se certifica de repetir isso várias vezes, para que fique muito claro o que Ele quer de nós e que isso é obrigatório e não algo que, se fizermos, será bom, mas se não fizermos, não importa muito. É tão importante que qualquer um que se recuse a cumprir Seus mandamentos, permanecendo na videira, se não se arrepender, nunca O conhecerá, será cortado da videira e não entrará no Reino dos Céus. Isso não significa de forma alguma que não vamos cair ou pecar! Mas significa que tentamos, apesar de nossas falhas e quedas, guardar a Palavra de Deus. Corremos a corrida da fé e, mesmo que caiamos, mesmo que seja diariamente, nos levantamos e continuamos, olhando para o Senhor Jesus:
 
Hebreus 12:1-2.

“...deixemos todo embaraço e o pecado que tão de perto nos rodeia e corramos, com paciência, a carreira que nos está proposta, olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus.”
 
Amor: o principal mandamento.

   Agora, falando dos mandamentos do Senhor, há um que engloba todos eles, o mandamento de amar uns aos outros. Como lemos no versículo 12:
 
João 15:12.

“O meu mandamento é este: Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei.”
 
   E para não nos enganarmos, não se trata aqui de um amor barato, um amor apenas em palavras. É, antes, o amor em ações. Como João disse em sua primeira carta:
 
1 João 3:18.

“Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade.
 
   E o que isso significa, ele esclareceu alguns versículos antes:
 
1 João 3:14-18.

“Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos; quem não ama a seu irmão permanece na morte. Qualquer que aborrece a seu irmão é homicida. E vós sabeis que nenhum homicida tem permanente nele a vida eterna. Conhecemos o amor nisto: que ele deu a sua vida por nós, e nós devemos dar a vida pelos irmãos. Quem, pois, tiver bens do mundo e, vendo o seu irmão necessitado, lhe cerrar o seu coração, como estará nele o amor de Deus? Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade.”
 
   Vemos novamente a palavra “permanecer”. Se você ou eu não amamos nosso irmão ou irmã, então permanecemos, não na videira, mas na morte! Se você e eu odiamos nosso irmão, então somos assassinos! E se não nos arrependermos, não nos iludamos: herdaremos aquilo em que permanecemos, ou seja, a morte. Além disso, dizemos que amamos o Senhor, mas nosso irmão ao nosso lado está em necessidade e escolhemos olhar para o outro lado? Não nos enganemos: o amor de Deus não permanece em nós, e nós não permanecemos Nele, na videira! A autenticidade da nossa fé é comprovada pelas nossas ações. Seguir o Senhor não significa dizer as coisas certas — amar apenas com palavras —, mas também fazer as coisas certas, amar com ações e na verdade. Uma prova muito clara disso nos é dada pelo Senhor em Mateus 25:34-46:
 
Mateus 25:34-46.

“Então, dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o Reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me. Então, os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome e demos de comer? Ou com sede e demos de beber? E, quando te vimos estrangeiro e hospedamos? Ou nu e vestimos? E, quando te vimos enfermo ou na prisão e fomos ver-te? E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que, quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim fizestes. Então, dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos; porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; sendo estrangeiro, não me recolhestes; estando nu, não me vestistes; e estando enfermo e na prisão, não me visitastes. Então, eles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou estrangeiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão e não te servimos? Então, lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo que, quando a um destes pequeninos não fizestes, não o fizestes a mim. E irão estes para o tormento eterno, mas os justos, para a vida eterna.”
 
E como disse Tiago:
 
Tiago 1:22-27.

“E sede cumpridores da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos. Porque, se alguém é ouvinte da palavra e não cumpridor, é semelhante ao homem que contempla ao espelho o seu rosto natural; porque se contempla a si mesmo, e foi-se, e logo se esqueceu de como era. Aquele, porém, que atenta bem para a lei perfeita da liberdade e nisso persevera, não sendo ouvinte esquecido, mas fazedor da obra, este tal será bem-aventurado no seu feito. Se alguém entre vós cuida ser religioso e não refreia a sua língua, antes, engana o seu coração, a religião desse é vã. A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e guardar-se da corrupção do mundo.
 
Conclusão:

   Para concluir, queridos irmãos e irmãs: devemos nos esforçar para guardar os mandamentos do Senhor todos os dias. Amar uns aos outros — não com palavras, mas com ações — é o principal mandamento. E se nos amarmos uns aos outros, perdoaremos uns aos outros, não cobiçaremos coisas más, não falaremos mal uns dos outros, não teremos inveja uns dos outros. Lembremo-nos da definição de amor que nos foi dada pelo apóstolo Paulo em 1 Coríntios 13:
 
1 Coríntios 13:4-7.
“O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece, não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.”
 
   Então seremos verdadeiros discípulos de nosso Senhor. Então Cristo virá e se revelará a nós. Então o Pai e o Filho virão e farão sua morada em nós. Então seremos amigos de Jesus. Então falaremos, e Ele ouvirá! E não pensemos de forma alguma que Seus mandamentos são pesados. Não! Eles são fáceis, porque Ele nos ajuda a cumpri-los:
 
Mateus 11:28-30.
“Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.
 
   Portanto, esforcemo-nos para fazer a Sua vontade. Esforcemo-nos para permanecer na videira e na presença do Senhor, uma presença que é dada apenas àqueles que permanecem Nele. E façamos isso até o fim, dia após dia.

 Anastasios.